«A cultura consiste em criar e não em repetir.»
Paulo Freire




A Companhia de Dança Contemporânea de Évora (CDCE) nasceu do desejo da coreógrafa e bailarina Nélia Pinheiro de desenvolver um projecto de intervenção comunitária, através de uma estratégia de DESCENTRALIZAÇÃO CULTURAL e ARTÍSTICA. Os anos de trabalho no Alentejo permitiram o conhecimento dos défices culturais e da carência de infra-estruturas na região, mas também a tomada de consciência das suas potencialidades e da necessidade de se pensar a DESCENTRALIZAÇÂO a médio e longo prazo.

O percurso foi iniciado em 1989 pelos grupos profissionais Dance In (1989-1991) e Oficina de Dança (1991-1994), dinamizadores de um trabalho de pesquisa-criação que, em 1994, gerou a base de sustentabilidade para a criação da actual CDCE. Sedeado em Évora, o projecto artístico tem vindo desde a sua criação a dirigir, conceber e apresentar as suas criações na região, no país e no estrangeiro.

A escolha da região Alentejo para a criação do projecto artístico e comunitário teve como objectivo, entre outros: a construção de um conjunto de iniciativas, de cariz colectivo, organizadas e programadas a partir de uma estratégia concertada, de forma que, em cada temporada, se estabeleça uma relação mais orgânica e piramidal da estrutura: artista – objecto – espectador. É importante que, tanto para a estrutura como para o espectador, exista uma oferta artística regular e a possibilidade de acesso a outros territórios de reflexão e relação com a arte. Neste projecto, a criação e difusão tem vindo a integrar-se na estratégia de formação em banda larga, que se desenvolve nas escolas do concelho de Évora (Projecto Dança na Escola) e na Escola de Formação CDCE.

Antes da tarefa pioneira de criação de uma companhia profissional de dança no Alentejo, foi percorrido um caminho de conhecimento e identificação da matriz cultural da região. O objectivo de Nélia Pinheiro era, e é, trabalhar a partir dessas componentes, no sentido de construir uma linha expressiva identitária. Aliás, como confirmam as criações, a matriz cultural da região foi desde sempre uma constante nas metodologias de criação, investigação e formação desenvolvidas na Companhia, pois que se parte do princípio de que um dos pilares essenciais de qualquer projecto artístico e cultural é a comunicação natural e livre com o público/comunidade envolvente.

As primeiras apresentações públicas, pelas praças de cidades e vilas, foram de extrema importância para a percepção, através das reacções do público, de quais os tipos de propostas coreográficas com que a comunicação com ele se estabelecia, não no sentido de as tornar mais «agradáveis», mas antes de recolher os dados passíveis de desafiar o gosto dos vários segmentos culturais e sociais, tentando despretensiosamente «desassossegar» os padrões estéticos, e tendo sempre como ponto de partida e de regresso a matriz cultural.

Foi e é dentro deste quadro que um grupo de profissionais captados para a região por Nélia Pinheiro desenvolveu um conjunto de estratégias transversais na arte, com o objectivo de ir ao encontro de públicos anónimos e com pouca experiência de consumos culturais nesta área.

A possibilidade de realizar um trabalho profissional na região foi conquistada neste processo de criação-exposição, formação de públicos, envolvimento das autarquias e de outros organismos locais e centrais.

Consciente desde o início dos factores que condicionam culturalmente a interioridade geográfica, e sabendo-se que a dança independente portuguesa se desenvolveu quase exclusivamente a partir de iniciativas centradas em Lisboa, a Direcção nunca deixou de estar atenta aos processos de mudança na dança independente nacional, embora o que sempre tenha falado mais alto em termos de pensamento e criação seja o movimento alemão TANZTHEATER.

A partir de 1999, a componente criativa da CDCE – até então companhia de reportório – adoptou uma linha de trabalho de autor, baseada no percurso artístico internacional dos criadores Nélia Pinheiro e Rafael Leitão. São também dirigidos convites esporádicos a outros coreógrafos para desenvolverem projectos de criação e formação com o elenco residente, dentro da lógica globalizante que norteia a Companhia. As suas produções percorrem com regularidade o território nacional e além-fronteiras: Espanha, Áustria, Polónia, Dinamarca, Itália e Letónia.

Artisticamente, o corpus central da CDCE, embora alicerçado na dança, inclui nas suas metodologias estratégias e linguagens das mais variadas valências artísticas, assim como suportes e espaços cénicos diversificados, convencionais e não-convencionais, numa postura afirmadamente contemporânea de criação, investigação e pesquisa identitária. Neste trabalho, o corpo, paisagem expressiva, torna-se um laboratório por excelência.

Todas estas componentes da dinâmica criativa, pedagógica, de pesquisa de identidade, que confluem, num necessário equilíbrio, num mesmo espaço de partilha e experimentação, assentam no papel primordial da dança enquanto factor de desenvolvimento milenar da comunidade humana e no diálogo entre as várias expressões culturais e artísticas, devolvendo-lhe:
- a sua importância;
- o gosto em praticá-la;
- a sua integração na comunidade;
- a sua busca de comunicação com novos públicos e actores.

Em 1996, a criação do projecto pedagógico da Escola de Formação CDCE e do programa de reciclagem e formação Oficinas de Dança, permitiram à Companhia a expansão comunitária e nacional de algumas das suas linhas estruturantes.

No campo da difusão, a CDCE lançou-se na realização de um Festival Internacional de Dança Contemporânea (FIDC), destinado à promoção, circulação e difusão da dança.

No campo da programação de espaços, inaugura-se, em 1998, o Espaço Novas Tendências, um espaço comunitário vocacionado para a mostra informal de trabalhos em pequenos formatos, em diversas áreas artísticas.

Com os anos e o acumular de experiências, a CDCE desenvolveu na região uma programação artística regular, articulada com algumas autarquias, incentivando a criação, a formação e difusão da dança junto do público, jovem e de outras faixas etárias, que tem vindo a ser conquistado nas cidades e vilas do Alentejo.

Na actualidade, a sede da CDCE representa um espaço polivalente, equipado com estúdios, uma black box, escritórios, onde se desenvolvem e confluem todas as iniciativas das áreas pedagógicas, informativa e criativa.

A aposta na manutenção deste projecto visa garantir as condições necessárias para o funcionamento de uma estrutura artística geradora de postos de trabalho, criar e salvaguardar as vontades de adesão – do público, privadas e das autarquias, assim como contribuir para o desenvolvimento e consolidação da tão desejada rede nacional de espaços de criação e troca de experiências, imprescindível para o ultrapassar da interioridade, a conquista de novos níveis de trabalho e o afirmar das valências identitárias do projecto.

Desde os finais de 80 até ao presente, a qualidade e criatividade, a assumpção do acto criativo a partir da matriz cultural de uma região, o seu valor particular na descentralização da dança portuguesa, a promoção de um desenvolvimento cultural integrado e globalizante, o contributo para o esbater das assimetrias culturais, e por fim, o compromisso, contra ventos e marés, na afirmação da identidade cultural do Alentejo, fazem da CDCE um projecto de valia inquestionável e insubstituível na região e no país.
 
 
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