Perfilados de Medo (versão II) Concepção | Direcção | Dramaturgia Rafael Leitão Coreografia Nélia Pinheiro Música Ambientes sonoros iniciais (criação da CDCE) | música tradicional da Jugoslávia | Henry Goreky – três peças em estilo antigo | Sérgio Godinho – Primeiro dia (1975) | Fernando Tordo e Ary dos Santos – Liberdade (1974) Bailarinos Hugo Goepp | Nélia Pinheiro | Catarina Trota | Rafael Leitão Participação Especial Rancho Folclórico Flor do Alentejo Figurinos | Cenografia Nélia Pinheiro | Rafael Leitão Adereços Elsa Batalha Desenho de Luz Fernando Alonso
Design Gráfico Rui Alves Técnico de Luz | Som Oliver Amado Construção de Cenografia Carlos Godinho
Duração 80 min Escalão Etário Maiores de 10 anos
Companhia Subsidiada Ministério da Cultura | Instituto Português das Artes do Espectáculo | Câmara Municipal de Évora
Estreia Évora | Teatro Garcia de Resende | 3 de Dezembro de 1999
Não foi La Fonteine que disse que o homem é um animal de excessos? Antes de excesso que por defeito, diria outro. O 25 de Abril foi tela pintada com tintas fortes. Amílcar Cabral dizia: o arroz não se cozinha fora da panela. "Face a face com os nossos mais profundos desejos, leva-nos a ver as coisas que nos rodeiam com outros olhos que não são os habituais."
Passo a passo, durante o período de criação se redescobriu as necessidades vitais do ser humano para a sua sobrevivência psíquica em condições estremas. A incapacidade de nos saber mover, existir, agir na condição de ser humano. Partindo de uma ideia definida sobre o produto final, propusemo-nos a realizar uma transposição a um mundo de referências tão próximo como surpreendentemente distante. Encontramos fotografias nos arquivos da CME, que acabaram por dar forma à ideia: desde os grupos de refugiados que vemos frequentemente nos noticiários, na servia, Angola, aos homeless, ou marginais que povoam qualquer cidade, cenas do período da revolução de Abril, estávamos rodeados das imagens que procurávamos. Não se tratava de realizar uma adaptação realista ou naturalista de nenhum destes ambientes. Tratava-se de ter como ponto de partida personagens de carne e osso, credíveis aos olhos do público deste final de século. As personagens são o resultado de toda a violência física e subterrânea, menos visível, apesar de estar exposta, mas existente, e que assenta quotidianamente a sua existência na prepotência, no sexismo, no servilismo e na lei do mais forte. Tudo referencias que nos fazem lembrar que a época da barbárie não esta tão longe como supomos, que efectivamente esta dentro de nós. Que todos, de alguma forma, nos podemos estar Perfilados de Medo. A acção é uma anti narrativa com o recurso a retornos e apelos interiores. Uma colagem subtil de situações gritantes, de indícios de loucura, evasão e ironia pungente. Começa na madrugada de 1974, com fugas da sede da DGS, e percorre os últimos 25 anos do milénio.
In Programa de Espectáculo
Imprensa
“O espectáculo começa na madrugada de Abril de 1974, com a invasão da sede da DGS, e percorre os últimos 25 anos do milénio. Perfilados de Medo compõe, segundo Rafael Leitão “um discurso de fusão entre a dança, o teatro e as artes circenses, em que a matéria corporal ocupa todo o espaço, num ritual de exortação da liberdade e das expressões”. Ao longo do período de criação, gradualmente “redescobriram-se as necessidades vitais do ser humano para a sua sobrevivência psíquica em condições extremas: a incapacidade de nos sabermos mover, existir, agir na condição de ser humano”. Este exercício é complementado com imagens fotográficas que acabaram por dar forma à ideia: “Desde os grupos de refugiados que vemos nos noticiários, aos homeless ou marginais que povoam qualquer cidade e às cenas do período da Revolução de Abril – estávamos rodeados das imagens que procurávamos.” No entanto, “não se tratava de realizar uma adaptação realista ou naturalista de nenhum destes ambientes”. As personagens resultam, pois, de “toda a violência física e subterrânea, menos visível, mas real, e que assenta a sua existência e prepotência no sexismo, no servilismo e na lei do mais forte”. Perfilados de Medo acaba por ser “uma colagem subtil de situações gritantes, de indícios de loucura, evasão e ironia.”
Rodrigo Affreixo in Revista Visão | Janeiro de 2000